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Através do futebol, através do ciclismo ou simplesmente pelo seu bom humor, Olivier Bonamici é provavelmente o comentador desportivo mais acarinhado do país. Este homem percebe de futebol, percebe de ciclismo, percebe de música popular portuguesa e da gastronomia mundial. Sabe como criticar quem come uma pizza Hawai em plena Bélgica, mas tendo Grega Bole como seu grande amor, perde sempre no famoso Jogo das Apostas. O Franciú falou ao Ciclismo 24 por 24 sobre a sua ligação ao ciclismo e sobre a edição “mega histórica” do Tour.

Olá Olivier! Como te ligaste ao ciclismo?
O meu pai era ligado ao desporto e passava horas e horas a brincar comigo. Desde os meus 7 ou 8 anos que ele comprava ciclistas em miniatura e fazia o Tour com eles, uma loucura! Atribua um nome a cada um, num caderno, fiquei fascinado logo na altura! Três anos depois começámos a ir ver provas ao vivo e a seguir na televisão. Fiquei fascinado não só com o ciclismo mas com o jornalismo desportivo em geral, através da brincadeira. Estudei direito e comecei com o jornalismo aos 18 anos de idade. Entretanto bati à porta da rádio lá em França a dizer que queria comentar o Tour. Aos 20 comentei o meu 1º Tour e lá em França fiz dois Tour’s incompletos. Cheguei a Portugal por razões pessoais mas tudo começou em França, com as brincadeiras que tinha com o meu pai.

Neste momento qual a tua praia, o futebol ou o ciclismo?
Eu diria que dos dois… é complicado. O ciclismo, para mim, é uma coisa genial de comentar porque tem a vantagem de podermos falar de muita coisa devido às extensões dos directos, enquanto o futebol é mais complicado, é sempre mais complexo e é impensável contar histórias durante hora e meia; no ciclismo dá tempo. Para mim, ambos são uma escola humana, para mim o desporto não é só um homem em cima de uma bicicleta ou a chutar uma bola, é a paisagem, a gastronomia, tudo mesmo.

Qual o teu favorito para o Tour?
É muito complicado para mim porque, para já, sou péssimo nas apostas que faço, acontece sempre o contrário (risos). Temos os quatro magníficos do ciclismo actual presentes, Froome, Nibali, Quintana e Contador e é esperada a melhor Volta à França da história, no papel pelo menos é… mas umas quedas e lá vai tudo água abaixo, mas no papel nunca vi nada assim!

Nunca existiu uma rivalidade entre quatro ciclistas na história do ciclismo. Lance Armstrong estava sozinho, Oscar Pereiro, Carlos Sastre, a seguir Contador apanhou os irmãos Schleck mas nada de especial, Cadel Evans,  depois a guerra interna Froome – Wiggins, mas nada comparado ao que está pronto para acontecer. Vimos Froome – Quintana – Contador há dois anos o que não foi nada mau, o ano passado podia ser bom mas Contador e Froome caíram, e para o Nibali foram favas contadas. Nós vamos viver um momento giro e único no desporto, quatro gigantes numa grande forma a participar numa grande prova. A Amarela vai ser para um deles, não acredito que venha um Super Homem bater os quatro. Dos quatro torna-se difícil porque estão com planos de treinos e preparações diferentes. Prever antes de se iniciar, é complicado.

Para beleza do desporto, na perspectiva jornalística e para os livros de história gostava de ver ou Contador ganhar ou Contador quebrar completamente, uma das duas. Se Pistolero ganhar entrará, pelo menos para mim, no top 6 dos melhores dos melhores de sempre. Se ele não ganhar, gostava que ele quebra-se, quebra-se completamente no meio de uma montanha. O espanhol a acabar como o compatriota Miguel Indurain em 1996 quando ganhou Bjarne Riis com o Ullrich em 2º e a seguir viessem Froome e Quintana e dissessem “Obrigado Contador pelo que fizeste no ciclismo e no desporto mas o teu tempo acabou.”.

A nível mais frio vejo mais uma luta entre Froome e Quintana. Vai acontecer muita coisa, algum deles perder tempo no contra-relógio ou no pavé, a ter um furo, uma queda ou até um dia mau. Noi entanto não subestimemos nomes Pinot, Péraud, Valverde e van Garderen que irão mexer na corrida quando chegar a montanha. No papel, nunca visto… agora nas etapas, vamos ver.

Quem levará a camisola verde para casa?
Peter Sagan, não lhe foge, mesmo que ele tenha que trabalhar e a equipa vá ter outros interesses. Não há ninguém à altura, será a 4ª que ele leva para casa.

Para ti, qual a etapa-chave desta edição?
Acho que a etapa-chave vai existir uma para cada um dos ciclistas, dos quatro favoritos. Para Froome o Pirenéus, ou seja, ele pode perder o Tour nas “bordeaus” ou no pavé. Quintana tem as etapas com descidas como maior obstáculo. Para Contador a etapa-chave é provavelmente no contra-relógio por equipas, e para Nibali será a etapa do pavé até porque Froome e Contador jogam nessa etapa também com o psicológico por causa do que se sucedeu no ano passado.

Qual o ciclista francês que esperas que fique melhor classificado?
Pinot, claro. Para Pinot um pódio seria um milagre este ano, o ano passado foi um acidente. No top 5 significa ser o melhor ciclista da 2ª galáxia porque se nada acontecer aos quatro magníficos os primeiros quatro lugares estão arrumados. Um dos primeiros três lugares da 2ª galáxia para Pinot seria excelente. Mas não subestimo Péraud, de todo.

Com que olhos vês os portugueses à partida? O que achas que pode fazer o Rui Costa particularmente?
Para a geral, Rui Costa espero que seja o melhor posicionado no final. Para o Tiago Machado um top 20 pois este ano é complicado como sabemos por causa da concorrência. Para mim, com este elenco, um top 10 do Rui seria magnífico. Ele tem pressão e isso é bom. Este ano é a viragem da carreira dele. É AGORA! É agora que ele vai passar para o lado dos extra galácticos. Mudou a sua preparação e bem. Tem uma equipa muito boa à volta dele e ele está com raiva positiva, se ele não fizer top 10, ganha uma etapa. Ele sabe que está na altura de marcar as pessoas novamente. Nelson trabalha e bem para Rui e José Mendes pode fazer algo giro, quem sabe, animar uma etapa ou até ganhar uma etapa. Isto é o mais alto nível, Rui Costa e o Tiago Machado nas grandes voltas em que participaram só fizeram um top 20 cada.

Nem Cheng Ji nem Grega Bole marcarão presença no Tour. Qual será o teu ciclista protegido desta vez? Esperas espezinhar em directo o Paulo Martins?
(Risos) Gosto muito do continente africano. Tenho medo que vá apostar num dos africanos africanos, num dos “negros” que são só dois, Daniel Teklehaimanot e o Merhawi Kudus, da MTN Qhubeka. Cheira-me que vou apostar num deles, nunca aconteceu na história um africano “negro” ganhar, tivemos apenas o Impey a ser o 1º africano a vestir a amarela. Esta será a 1ª vez que um africano “negro” vai participar e eu vou ter que assinalar isso, não é?! Ainda bem que o Grega Bole não está porque o “gajo” começa a irritar-me, só me lixa a cabeça. Paulo Martins prepara-te, estou a ficar farto de perder!

Por último, o que gostarias de dizer aos teus fãs e aos teus seguidores?
Para já quero dizer que pretendo esmagar o Paulo Martins e o Piçarra nas apostas. Segundo que estou super contente de comentar este Tour, vou fazer o meu melhor para transmitir o meu amor por esta modalidade e esta luta pelos quatro titãs mundiais. Vou tentar ser o mais objectivo possível, sem qualquer patriotismo.

Obrigado Olivier!
O prazer foi meu, um abraço a todos!

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Aprendeu a ver, comentar e redigir ciclismo junto do seu amigo Paulo Martins. Sempre à procura de mais e melhor, Diogo Santos é o director do Ciclismo 24 por 24 desde Fevereiro de 2015. Para ele, não existem inimigos nem rivais na modalidade, pois o ciclismo permite diversas perspectivas e oferta.

Diogo Santos é uma das vozes mais activas contra o “Acordo” Ortográfico.

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