Texto de Artur Narciso

Edição e fotos de Diogo Santos

Para o ciclismo afirmar-se em Portugal como uma modalidade preferencial ou até mesmo para as equipas nacionais subirem de escalão há, entre outros, dois factores críticos. A dimensão económica do país (dimensão dos patrocinadores) e uma formação desportiva diferente da que existe.

É importante salientar que a Federação Portuguesa de Ciclismo forma novos treinadores com bases para fazer um bom trabalho. É igualmente importante dar mérito aos imensos treinadores que, sem recursos materiais e financeiros, querem e fazem um excelente trabalho. Os novos valores vão aparecendo mas há muito valor que se perde, muito valor que não se descobre se mantivermos a formação no ciclismo com a actual abordagem e com o mesmo figurino de calendário de provas.

O actual panorama formativo dos mais jovens precisa claramente de juntar a pedagogia ao ensino técnico, deixar de limitar as crianças a uma realidade que é o “andem” ou “façam a gincana bem”. Explicar-lhes coisas tão simples como a física que compõe o andamento da bicicleta, ou, sendo também o ciclismo trabalhar em equipa, que ensinamento isso dá para que esta se torne no Homem de amanhã. Estes são meros exemplos de detalhes que devem ser reforçados na formação.

Uma forma de aproximar o ciclismo da sociedade em geral e, assim, ser um desporto mais íntegro e reter os jovens e crianças é usar os treinos de ciclismo para colocar os jovens em contacto com assuntos da nossa História ou da Natureza de todos nós. Temas que, de outra forma, tendem a ficar na gaveta. Este é um dos poucos desportos em que podemos mudar o cenário a cada treino. Com este papel pedagógico o ciclismo tornar-se-á não só agregador para as crianças, como até mesmo incentivador para os pais continuarem a apoiar os seus filhos. Esta potencialidade é simplesmente esquecida e a Federação deveria criar incentivos para que as escolas utilizem esta abordagem e aproximem e integrem ainda mais o ciclismo na sociedade. Pode fazer-se mais e melhor do que o projecto “O ciclismo vai à escola”.

A situação mais crítica na formação é a forma como é permitida a organização das escolas. Colocaria o seu filho na escola primária com mais três colegas, um de cada ano, e a mesma professora? Claramente que não. No entanto, no ciclismo é possível que uma escola tenha um reduzido número de atletas e continue anos a fio a trabalhar, tendo impactos nefastos na atractividade da modalidade para o jovem e levando o treinador, muitas vezes, a treinar todos os atletas ao mesmo tempo e com as mesmas orientações. É fácil de entender que uma escola com um número reduzido de atletas em cada escalão não tem condições para ser atractiva, para ser motivadora e para um treinador aplicar todos os seus conhecimentos. Esta situação coloca em risco a condição física do atleta, permite um subdesenvolvimento da criança e cria um cenário desmotivante que, em contexto de encontro de escolas, se vai reflectir na relação com os demais. Ao final do dia, a probabilidade de que ali temos mais um jovem que desiste do ciclismo é grande, sem nunca sabermos ao certo se estaríamos perante um bom futuro ciclista. Isto leva a que muitas vezes a criança procure um outro desporto onde exista mais dos “seus”.

Com esta realidade é urgente haver regulamentação que coloque condições mínimas para as escolas estarem abertas, garantindo assim um ambiente sustentável de aprendizagem e de socialização para a criança e para o jovem. O ciclismo não pode dar-se ao luxo de continuar a ter a Federação, em conjunto com as autarquias, a financiar uma realidade que não é produtiva para a própria modalidade, sob pena de continuar a perder atletas mesmo antes de chegarem à competição, desperdiçando dinheiro que poderia ser investido de forma mais eficaz. A Federação pode, por exemplo, incentivar o crescimento das escolas ou a unirem-se entre si para que exista maiores condições de trabalho, atractividade e motivação.

Chegando aos cadetes e aos juniores os clubes começam a sentir os problemas que anteriormente permitiram e fomentaram. A escola conclui que não tem capacidade para alimentar estes escalões e começa a luta entre clubes para ir buscar o atleta A ou B a outro clube, não tendo existido, em primeiro lugar, a preocupação de ter uma escola que desempenhe eficazmente o seu papel. Isto é, de desenvolver jovens para o escalão seguinte em qualidade e quantidade suficiente para garantir a sua própria continuidade.

Por fim, os sub-23 em Portugal são um enorme desafio. Se por um lado muitos dos atletas já abordam o ciclismo de uma forma bastante profissional, por outro as equipas de ciclismo que tiveram os seus juniores provavelmente presentes em 15 ou 20 provas no ano anterior, são confrontados com a falta de provas de sub-23 a nível nacional. Importa relembrar que este escalão é a porta de entrada para as elites. Alguns treinadores já me confidenciaram que, com esta realidade, este escalão pode acabar. Isto porque, não havendo provas suficientes, a visibilidade potencial é insuficiente para atrair ou manter patrocinadores. Diante este cenário muitos atletas ponderam ou deixar o ciclismo, ou ir para fora de Portugal. O sucesso de João Almeida e Ruben Guerreiro não é um mero acaso. Entre outros factores, tiveram que emigrar para continuarem a competir e a mostrarem-se.

Temos todo o potencial para evoluirmos no ciclismo se produzirmos mais talentos, sendo isso possível com uma maior integração do ciclismo com a sociedade e com um papel mais activo e pedagógico nos escalões de formação. É crítico profissionalizar e ter um plano estratégico para todas as escolas terem uma estratégia pedagógica e uma visão piramidal em que o escalão inferior consiga alimentar o escalão seguinte. E, claro está, aumentar o número de provas para os sub-23, não fazendo sentido a carga competitiva destes ser tão diminuta como acontece correntemente.

O ciclismo nacional tem potencial, basta colocar-lhe outra mudança para ter novos andamentos e trepar os desafios que surgem.

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