Os ganhos marginais entraram no mundo do ciclismo através da Team Sky e estes ganharam novos contornos no contra-relógio individual da etapa 5 do 108º Le Tour de France. Os protagonistas? Tadej Pogačar (UAE Team Emirates), favorito à vitória final da prova e Mathieu van der Poel (Alpecin – Fenix), líder da prova à entrada da jornada.

Tadej Pogačar, vencedor do 107º Tour de France, foi o vencedor do primeiro de dois esforços individuais na edição 108 da Grande Boucle, saindo com o estatuto de favorito à vitória final reforçado. No seio deste triunfo teve o trabalhar da posição do esloveno na bicicleta (através, por exemplo, do ajustar do ângulo do selim na bicicleta de contra-relógio e, com isso, este ter uma posição mais aerodinâmica e eficiente com as costas mais relaxadas e os ombros mais dobrados em cima da bicicleta) ao longo de vários meses e com recurso aos túneis de vento da Flanders’ Bike Valley. Para além de ter tornado mais eficiente o uso da sua força este trabalho de optimização gerou 15 watts adicionais, ou seja, o ciclista passou inclusive a ter mais força disponível para exercer em e a cada pedalada. Com que se isto não bastasse, Tadej Pogačar reconheceu o percurso do contra-relógio por três vezes. Tudo isto com o objectivo de aprimorar a performance até ao mais ínfimo pormenor, esses mesmos pormenores que, ao final do dia, foram os tais ganhos marginais com os quais o esloveno triunfou.

Pogačar procurou no primeiro contra-relógio da 108ª edição trocar a camisola branca de liderança da juventude para a amarela de liderança da geral.

No caso de Mathieu van der Poel os ganhos marginais foram gerados pelo material utilizado pelo neerlandês. O atleta, a sua equipa e um dos seus principais patrocinadores, a Canyon, queriam manter-se de amarelo no 108º Le Tour de France. Para tal, montaram a melhor bicicleta de contra-relógio possível para que o Tetra-campeão do Mundo de Ciclocrosse continuasse a honrar o legado e o sonho do seu avô, Raymond Poulidor (que teve como grande objectivo de carreira envergar a camisola de liderança na prova mas nunca o conseguiu fazer, sendo que o seu neto alcançou esse mesmo objectivo na sua primeira participação na prova).

Tudo começou na Segunda-feira de manhã, a 48 horas do contra-relógio. Christoph Roodhooft, manager da Alpecin – Fenix, contactou um dos representantes da Princeton Carbonworks, Meindert Klem questionando-lhe se um par de rodas Priceton Carbonworks Blur 633 / Wake 6560 estava disponível para aquisição. Sem uma resposta positiva e sem solução no mercado mais próximo da equipa (o neerlandês), a solução chegou através de Cameron Wurf (ciclista da Ineos Grenadiers). A equipa britânica utiliza este conjunto de rodas no esforço individual e, (ao que consta) atabalhoado com o pedido, o ciclista australiano cedeu as suas rodas a troco de 3 800€. Com Wurf a residir em Andorra, era necessário que estas chegassem a Rennes (onde a equipa estava alojada) a tempo da etapa. O problema foi resolvido através de Mark Putter, dono de um resort nos Pirenéus conhecido de Klem e fã de Poel, que fez os 900 quilómetros entre os dois pontos geográficos. No entanto, apenas a roda traseira foi montada na bicicleta do neerlandês: a roda dianteira acabou por ser uma Aerocoach Aeox Titan.

Mathieu van der Poel em prova com o capacete, extensores, rodas e capas de sapato descaracterizadas.

Mas as rodas não bastavam. Mathieu Van der Poel foi equipado com um capacete Lazer Volante (o mesmo que é utilizado pela Team Jumbo – Visma), com uns extensores Aerocoach Ascalon (mesmo após ter sido anunciado pela marca WattShop que seriam uns extensores Anemoi Extension System) e com umas capas de sapato Aerocoach NoPinz. Importa relembrar que estas mudanças e aquisições não-patrocinadas se sucederam numa questão de horas.

Mathieu van der Poel fez um esforço individual de excelência, terminando a etapa no 5º lugar e preservando a liderança da prova (por oito segundos sob Pogačar) por mais três dias. No entanto, foram quatro acordos rompidos em prol do material mais aerodinâmico, com o objectivo único de manter a camisola amarela. Que consequências terá esta acção no futuro mais próximo da equipa e do atleta a nível destes mesmos (e até de futuros) patrocinadores? Isto porque a Shimano foi a única a aceitar, pelo menos publicamente, fechar os olhos à situação.

No final do dia foi Poel a subir ao pódio, por uma margem de 8 segundos face a Pogačar.

No final das contas, quanto vale vestir de amarelo na Grande Boucle?

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